Preparem-se para este livro Literário e Histórico ao mesmo tempo, porque retrata, de uma maneira literária, os COSTUMES DE UMA ÉPOCA no RIO DE JANEIRO. É muito interessante. Leremos um Capítulo em sala e o dramatizaremos. Concordam? MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS O autor retrata uma imagem caricatural do Rio de Janeiro por volta de 1800. No capítulo "Pequeno Leonardo, o anti-herói", aparecem as figuras dos Meirinhos (funcionários judiciários) que se encontravam entre as ruas do Ouvidor e da Quitanda e que gozavam então de não pequena consideração. Ali também estava presente um grupo a conversar: na vida dos fidalgos, nas notícias do Reino e nas astúcias policiais do Vidigal. O decano da corporação, o mais antigo dos Meirinhos, era o chamado rotundo e gordíssimo personagem de cabelos brancos e carão avermelhado, o não menos famoso Leonardo Pataca! Veio de Portugal. Aqui alcançou, não se sabe por proteção de quem, o emprego de que o vemos empossado. Viera com ele no mesmo navio uma certa Maria das Hortaliças, quitandeira das praças de Lisboa, saloia (camponesa) rechonchuda e bonitona. O Leonardo não era mal-apessoado e sobretudo era maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que estava distraído e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito.
Está vendo só como começa este romance? Com um beliscão e uma pisadela. O que será que vai acontecer no Desenvolvimento e no Final. SURPRAISE! Só lendo o livro. Esta pipoca nós vamos degustar na hora em que estivermos assistindo ao FILME que o Prof. ONALDO passar. Ah! Sem barulho! A Maria sorriu-lhe como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma diferença em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos... Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enjôos...: foram os dois morar juntos; e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. O menino de quem falamos é o herói desta história, ou melhor, o anti-herói. Aos sete anos o menino não desmentiu aquilo que anunciava desde que nasceu: atormentava a vizinhança, com um choro sempre em oitava alta; era colérico, tinha ojeriza particular à madrinha e era estranho até não poder mais. Logo que pôde andar e falar, tornou-se um flagelo; quebrava e rasgava tudo que lhe vinha à mão. Tinha uma paixão decidida pelo chapéu armado do Leonardo; se este o deixava por esquecimento em algum lugar ao seu alcance, tomava-o imediatamente, espanava com ele todos os móveis..., esfregava-o em uma parede, e acabava por varrer com ele a casa. Este garoto vai dar trabalho. Mas analise a família de onde ele nasceu! Ciúmes, brigas só poderiam originar uma criança que vai dar bastante trabalho. Além de traquinas, era guloso; quando não traquinava, comia. A Maria não lhe perdoava; trazia-lhe bem maltratada uma região do corpo, porém ele não se emendava. Leonardo havia desde certo tempo concebido fundadas suspeitas de que era atraiçoado. Havia alguns meses tinha notado que um certo sargento passava-lhe muitas vezes pela porta, e enfiava olhares curiosos através das rótulas. Depois começou a estranhar que um certo colega seu o procurasse em casa, sempre em horas desencontradas. Finalmente, aconteceu-lhe por três ou quatro vezes esbarrar-se junto de casa com o capitão do navio em que tinha vindo de Lisboa... um dia de manhã entrou sem ser esperado pela porta adentro; alguém que estava na sala abriu precipitadamente a janela, saltou por ela para a rua e desapareceu. O pobre homem perdeu as estribeiras; ficou cego de ciúme... endireitou para a Maria com os punhos cerrados. Leonardo - Grandessíssima! ... e pôs-se a tremer com todo o corpo. A Maria recuou dois passos e pôs-se em guarda.Maria - Tira-te lá, ó Leonardo! Maria - Safe-se daí! Quem lhe mandou pôr-se aos namoricos comigo a bordo?
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